terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

025



Não gosto do comportamento de quem ocupa o cume da pirâmide social brasileira. Quando digo isso, incluo amigos e parentes. O motivo é simples: considero triste que nossa estratificação social esteja baseada no poder aquisitivo e no consumo. Acredito que a elite de uma sociedade deveria ser composta por indivíduos dotados de uma formação de altíssimo nível, plena consciência de si e pensamento crítico aguçado. Mas as coisas não são bem assim. Nossos pretensos aristocratas são aqueles que dirigem carros que custam três vezes mais que em seus países de origem e obedecem à mesma matemática para os preços de suas roupas, mobília e gadgets. Sempre com o objetivo obtuso de se diferenciar dos mais pobres, identificando seus semelhantes pelos bens, vestimentas, objetos e, desta maneira, formando um grupo a parte, uma bolha.

E pouco importa a eventual origem escusa dos rendimentos, a falta de respeito com o garçom e o filho que não estuda, mas ocupa cargo de diretoria assim que termina uma faculdade de segunda linha. É tudo parte da lógica provinciana dos nossos ricos: esteja de acordo com o senso comum do grupo, tenha muito dinheiro e o gaste de maneira semelhante a do morador da cobertura ao lado. Uma receita simples e certa para compor as fileiras de uma "classe A" degenerada e dispensável.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

024




As velhas crenças estão mortas. A tradição já passou da validade e aqueles que ainda evocam valores antigos não avançam mais. A velocidade do mundo aumenta a olhos vistos e tudo é reduzido a seus elementos fundamentais. Três ou quatro linhas já são mais que suficientes.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

023


É tão triste morar numa cidade com tanta gente pobre e sem formação que se contenta em parecer rica, ou importante. Concentram-se em vender uma imagem de sucesso, ainda que ilusória. Na melhor das hipóteses, conseguem um dinheirinho convencendo uma porção de desavisados de suas fantasias de grandeza. E é só isso.

Gente com algum conteúdo que valha, conto nos dedos.



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

022


Entretanto, sou consciente de que a areia na ampulheta da minha existência ainda não terminou de correr. Disponho de alguns sóis antes do fim e, portanto, alguma chance. Mas a equação para a construção de uma vida que valha exige certas variáveis. Dentre elas: tempo, recursos materiais, liberdade, habilidade mental, oportunidade histórica, ajustamento emocional, determinação e principalmente sorte. Nem farei as contas do quanto disponho de cada. Seria perda de tempo e energia, que nem me sobram tanto assim. Resta aceitar que posso tropeçar, ou perder um membro, ou morrer.


Tudo, no fim das contas, se relaciona à fortuna ainda que se possua virtù maquiavélica em profusão.



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

021



Observo as pessoas e só enxergo a insatisfação causada por esta semana de dois dias e meio. Mas já já todo mundo entra no ritmo de novo. O discurso do “as coisas são assim mesmo, você se acostuma” tem um poder incrível e quase não há quem não sucumba a este argumento digno da inteligência de um crítico de TV.

Enfim, sigam seus dias, cumpram agendas, repitam, sejam bonzinhos e cordatos. Logo acaba, né?

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

020




If I could fall

Into the sky

Do you think time

Would pass me by
´Cause you know I´d walk
A thousand miles
If I could

Just see you...
O mundo continua tão estúpido no carnaval como de costume, mas os ares ficam definitivamente mais respiráveis. Sinto-me mais à vontade. Não que eu faça algo de muito diferente do que estou acostumado. Mesma colocação, mesma incoerência, mesmo estado alterado de consciência. A diferença é que, por estes tempos, tenho bem mais companhia, mais gente na mesma vibração, que oscila entre extremos. Só lamento que a maioria desses loucos de ocasião retorne à malfadada servidão voluntária a que está habituada. O pior é quase me convence de que eu também deveria agir assim. 
Enfim, talvez as pessoas sintam a realidade da mesma forma que eu. A diferença é que seriam dotadas da admirável capacidade da resignação. ¬¬

sábado, 18 de fevereiro de 2012

019



Acho muito louco esses lugares de pegação que têm internet liberada para os frequentadores. Se não fosse isso, nem post eu soltaria hoje. Aqui estou, minha barba, um punhado de padê, chuca impecável, estado maníaco, companhia confiável, libertinagem carnavalesca e muito saquê. Celebrar os dias de sua alteza, o rei Momo, é exatamente isto: absoluta falta de senso, relógio sem órbita e gostinho daquilo que considero um aperitivo da verdadeira liberdade.

E chega. Só para dizer que estou vivo e pretendo continuar assim até a próxima quarta-feira de cinzas. Até mais, caríssimos visitantes. :)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

018


“O fortuna
Velut luna

Statu variabilis,

Semper crescis
Aut decrescis;
Vita detestabilis
Nunc obdurat
Et tunc curat
Ludo mentis aciem,
Egestatem,
Potestatem
Dissolvit ut glaciem.”


E já nem sei dizer o quanto falar sobre banalidades com outros adultos me indispõe ainda mais. Idiotas que querem conversar sobre qualquer amenidade, seus últimos consumos, ou “o carnaval”, por exemplo. Penso até que a estupidez generalizada e a superficialidade grotesca que certas gerações imprimem em seu tempo sirvam como estopim espiritual de guerras e outras calamidades. O humano de cada ser vai sendo sufocado e, quando atinge um estado crítico, explode.

Tal um guru de meia pataca, prevejo que inúmeras explosões importantes ocorrerão em nosso tempo. Quanto a isso, nada posso fazer. Já com relação à minha iminente erupção pessoal: apenas conto que uma das emanações aleatórias da sagrada Tique me acerte em cheio.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

017


Falei outro dia que não gosto de TV aberta, mas estou agora (15/2 23:15h) na casa de um amigo, assistindo à Rosa Maria Murtinho falando que o resto do Brasil tem “inveja de São Paulo”. Confesso que ouvir tal bravata não tem preço. E completou: “se São Paulo fosse separado do resto do país, seria primeiro mundo”.

Politica e deliciosamente incorreta, a dama da dramaturgia disse o que veio à mente em entrevista ao programa – surreal – do Ronnie Von. Adorei! Ok, linhas fartas somadas a um espumante demi-sec ajudaram bastante na minha apreciação. Em meu estado normal, estaria sintonizado na HBO.

Depois, o amigo em questão propôs uma aventura ainda mais intensa: o programa da filha do Silvio Santos. Apesar dos rapazes musculosos, o troço é ruim que dói. Quando começou o funk da “atoladinha”, meu anfitrião foi ao delírio. Como sou educado, pedi mais uma taça, porque ‘de cara’ seria impossível. Foi assim.

Agora é programar esta postagem para o primeiro minuto do dia 16 e continuar firme e forte no *brilho* nesta noite sem luar.



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

016



Todo dia reservo cinco minutos para escrever algo, que decido na hora, e postar aqui. Hoje o assunto era a tensão pré-feriado tão típica do nosso tempo. Esse lance das pessoas se conformarem em vender seus dias por um punhado de dinheiro no final do mês e utilizarem os recessos como válvula de escape. Mas fechei a tela sem salvar e perdi meus três parágrafos. Paciência...

Enfim, como não amar a engenhosidade dos donos do capital, que substituíram um modo de produção baseado na escravidão pelo trabalho assalariado? Em troca de alguns dias de liberdade por ano, consegue-se uma economia e tanto! Era mais ou menos por aí, mas não vou tentar reescrever. Fui :)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

015

Raramente assisto a canais abertos, a não ser que esteja na casa de alguém que ainda o faz. Eventualmente sintonizo um dos canais de filmes, que sempre exibem produções de pelo menos dois ou três anos atrás. Quando quero ver algo especifico, baixo o arquivo e assisto lindamente. Já os seriados americanos sempre foram o principal motivo para manter um pacote de TV a cabo para além do básico, mas a tão amada internet me permite acesso aos episódios em até vinte e quatro horas após a apresentação nos EUA. Isso para dizer que minha televisão virou uma espécie de ruído: algo que deixo ligado apenas para ter a sensação de que não estou sozinho enquanto dou cabo de outros afazeres. Pois é, Bram Cohen, eu concordo com você: o fim da TV está próximo.



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

014



Não sou do tipo que julga as pessoas sob a ótica da legalidade, da moralidade, ou do uso do intelecto. Acho que alguém pode exercer uma atividade proibida pelo tal do Estado e, ainda assim, ser muito bacana. O mesmo vale para quem vive do sexo, da exposição do corpo, ou de qualquer outra atividade erótica condenada pelas dispensáveis e nefastas religiões. Finalmente, um trabalhador braçal é quase sempre mais interessante que um contador.

Mas isso não quer dizer que eu não tenha parâmetros para definir a distância que devo ficar de alguém. Lealdade é um valor para mim. Se alguém em meus círculos me trai é imediatamente banido para a periferia das minhas relações, ou excluído de uma vez. Sei que se trata de uma tolice, que o ideal é não nos apegarmos aos pequenos defeitos do outro e compensá-los com eventuais qualidades. Entretanto, sou homem e tenho o direito de manter ao menos uma reserva em relação aos demais.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

013



Poderia ser pior. Poderia morar numa zona rural, num país islâmico, ou num paraíso ecológico. Viver sem saneamento básico, metrô, ou internet rápida. Ser membro de uma família com muitos irmãos, órfão, ou filho de pais violentos.  Ter limitações físicas, mentais, ou sensoriais. Morrer na infância, na adolescência, ou no início da juventude. Não ter acesso à educação, à boa alimentação, ou a uma cama confortável para dormir. Estar numa prisão, sanatório, ou hospital. Virar celebridade, escritor de autoajuda, ou funcionário da Rede Globo. Dever ao cartão de crédito, agiota, ou parente.  Ganhar salário mínimo, soldo, ou bolsa família. Poderia citar um sem número de exemplos, mas prezo pela economia de formas.

Para não esquecer que a vida, se fosse um poço, não teria fundo.



sábado, 11 de fevereiro de 2012

012


As coisas são tão rápidas hoje em dia que sempre fico preocupado que alguém leia o que escrevo aqui, trace um perfil de uma vez por todas e tenha certeza do que vai encontrar. Sei que é inevitável criar expectativas para além, ou aquém, no mundo virtual, mas ter que corresponder à fantasia de quem quer que seja é complicado.

Ao tentar ser libertário (ah tah...) e escrever sobre sexo, neguinho acha que vai trepar como louco. Quando critico as coisas da vida, chega o cara e pensa que a conversa sobre política, em uma mesa de bar, vai entrar madrugada adentro. Já evocar a beesha que vive em mim, sempre desperta a imagem de uma caricatura qualquer.

O ponto é que é foda viver num mundo de rótulos, onde ninguém mais tem tempo para conhecer o outro em suas tão humanas contradições. Resta um “segura nos trinta” para dizer tudo o que for possível para tentar impressionar o povo no tempo de um comercial de tv...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

011



Diga o que quiser, mas seja divertido. Essa bem que poderia ser a nova inscrição no estandarte brasileiro. Vivemos uma ditadura do humor e quase todos os assuntos passaram a ser tratados em tom de comédia. Se por um lado assuntos de difícil trato ganham ares de leveza por outro há quem coloque a piada acima do que deve ser dito.

E nem me importo em posar de mal-humorado-mor, pois ando com uma preguiça danada de gente engraçadinha...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

010


Certos sentimentos, mais precisamente os associados ao que chamam de amor, devem ter sido fundamentais para o homem primitivo. Estar em meio a uma natureza inóspita, com dificuldade em obter alimentos, refém de doenças desconhecidas e sem um conhecimento objetivo a respeito do mundo tornavam aqueles homens dependentes do afeto de seus iguais para enfrentar algumas poucas dezenas de anos de vida, na melhor das hipóteses.

De lá para cá, os homens dominaram a natureza, construíram cidades, aprenderam sobre o mundo, produziram comida em abundância, diagnosticaram e trataram doenças. Se a vida tornou-se mais artificial, há quem defenda que este é o destino do homem: destacar-se completamente de seu estado de natureza. O problema é que as benesses do mundo moderno são restritas e concentradas sob a propriedade de uma pequena parcela dos vivos.  Para todos os demais, restam apenas abraços, afagos, carícias, ou seja, atavismos de sentimentos primitivos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

009


Concordo com quem disse que o homem precisa de um sonho para viver. Pela falta de capacidade cognitiva para dissociar mera causalidade de propósito, precisamos de uma justificativa qualquer para a curta experiência que chamamos vida.

Bebemos água para evitar a desidratação. Precisamos manter certos níveis de hidratação porque somos o resultado de reações bioquímicas que iniciaram na água. De certa forma, somos água. Resultado provisório de uma série de causas e efeitos, de encaminhamento aleatório, que produziu existências individuais que utilizam artefatos em silício para reproduzir pensamentos. Com que intento? Nenhum.

Mas se há um propósito maior para a para a nossa existência, como explicar  milhares de mentes conectadas o pay per view do BBB neste exato momento?


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

008




Encontrar satisfação com a vida tal como ela se apresenta é uma arte. Quem já não ouviu a história do pequeno empresário que trabalha quatorze horas por dia, nunca tira férias, mas constrói uma casa de cinco andares e se diz "vitorioso"?

Em terra de artistas, que tiram prazer das existências mais tolas, é quase uma provocação não ser histericamente alegre. E num país onde um dos heróis da atualidade é um Beckham às avessas, a coisa é um pouco pior.


Funciona mais ou menos assim, enfrente falta de estrutura urbana, segurança pública precária, salários baixos, alta concentração de renda, governo corrupto, população mal educada, uma elite degenerada, preços exorbitantes e, ainda assim, seja contente, contente, contente... ostensivamente histérico.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

007



Seria ótimo que a existência realmente precedesse a essência. Bastaria colocar todos os impedimentos à liberdade num saco de gato com a inscrição “má-fé” estampada e taaadaaa. Sair gritando fantasiado de Chiquita Bacana da Martinica.

Mas se considero, por exemplo, o desejo homoerótico impresso em cada fio de cabelo desta minha existência, a tese do amante de Beauvoir é posta em xeque. Afinal não sou tão livre assim para decidi meu destino e atitudes. Ou sou?

Aparentemente não... Pois só de imaginar entrar na casa errada da rua Augusta e me deparar com moçoilas de pele lisa, seios fartos, coxas vigorosas e aquela doce suavidade tão peculiar do gênero feminino, sinto algo entre a preguiça e o desânimo. Definitivamente não!

Sua “preferência” foi construída, dirão aqueles que ainda não se desvencilharam do século XX. Dizer o quê? Talvez até a tal da filosofia da liberdade, das mais radicais já criadas, dizem, tenha seu aspecto reacionário enfim.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

006



Gays mentem muito. Generalizei? Pode até ser, mas não conheço muitas exceções. Penso que a mitomania exacerbada dos rapazes que gostam de rapazes seja uma espécie de resquício do armário. Depois que o cara passa boa parte da vida se escondendo da família, de amigos e dele mesmo, mentir torna-se automático. A maior prova são os toques de brilho que muitas bees atribuem à própria situação financeira, a suas conquistas, ou ao personagem que criam para as colegas de boate. Se bem que dar close na noite tem lá seu lado pitoresco e engraçado. O problema é quando esse comportamento se estende aos relacionamentos mais íntimos e os torna inviáveis. Estabelecer relações sem confiança recíproca não faz nenhum sentido. E você, que acabou de ler este post e nunca é 100% honesto com o a-mor-da-sua-vi-da, sabe o que quero dizer.

Por essas e outras que considero tão importante que a criança/adolescente gay possa se expressar com liberdade, sem precisar mentir sobre seus sentimentos desde sempre. Crescer livre de certos hábitos...